Um encontro com a minha ancestralidade

Hoje vivi uma experiência que ainda estou tentando compreender, mas que, ao mesmo tempo, parece ter me mostrado alguma coisa com uma clareza que não consigo ignorar.
Vi um post sobre uma mulher e uma baleia relacionado à menopausa. A imagem e a mensagem me tocaram de uma maneira inesperada. Naquele momento, comecei a chorar profundamente. Não era exatamente pelo conteúdo do post, mas alguma coisa naquela imagem pareceu abrir uma porta dentro de mim. Enquanto chorava, comecei espontaneamente a pensar nas mulheres que vieram antes de mim: minhas avós, minhas bisavós, minhas tataravós, minhas tias e minha mãe. Eu via os rostos delas e sentia uma gratidão muito grande por todas.
Então disse, em voz alta: “Agora chegou a minha vez. Gratidão a todas vocês. E tomara que eu faça a diferença, honrando cada uma.”
Depois disso, veio uma sensação muito forte de alívio. Foi como se alguma coisa que eu carregava há muito tempo tivesse encontrado um lugar para repousar. Senti esse alívio até fisicamente, como se um peso tivesse sido retirado da minha coluna.
Foi somente depois que a emoção passou que me lembrei de um sonho que tive alguns meses atrás. Eu havia sonhado com uma palavra muito específica: cachalote. Eu sabia que era uma baleia, embora não compreendesse por que aquela palavra havia aparecido no sonho. Ela simplesmente ficou guardada na minha memória.
E hoje a baleia reapareceu.
Dessa vez, porém, ela estava ligada à menopausa e à ideia de uma nova fase da mulher. Uma fase em que ela deixa de ocupar determinados lugares que passou a vida ocupando para assumir outro lugar: o da liderança de si mesma.
Foi exatamente isso que senti.
Talvez por isso o meu choro tenha sido tão profundo. Talvez eu não estivesse apenas diante de uma imagem, mas diante de uma compreensão que ainda não tinha conseguido colocar em palavras.
A menopausa pode ser vista apenas como o fim de um ciclo biológico. Mas existe outra maneira de olhar para essa passagem. Ela também pode representar uma mudança de posição diante da própria vida. Depois de tantos anos dedicados a cumprir papéis, atender expectativas, cuidar, sustentar, construir e corresponder ao que se esperava de nós, chega um momento em que alguma coisa pergunta: e agora, o que você quer fazer com a mulher que você se tornou?
Foi nesse lugar que eu senti a frase “agora chegou a minha vez”.
E, quando pensei nas mulheres que vieram antes de mim, essa frase ganhou ainda mais significado.
Não senti que precisava me separar delas. Pelo contrário. Senti que fazia parte de uma história que começou muito antes de mim. Mulheres que viveram em outras épocas, com outras possibilidades, outras limitações e outras formas de compreender a própria existência. Mulheres que fizeram o que puderam com aquilo que tinham.
Eu não preciso julgar suas escolhas para reconhecer suas histórias. Também não preciso repetir seus caminhos para honrá-las.
Talvez honrar quem veio antes seja justamente ter a coragem de continuar a história de uma maneira diferente.
Receber a vida que chegou até nós, reconhecer tudo o que foi necessário para que ela chegasse e, então, assumir a responsabilidade pelo que faremos com ela.
Foi isso que senti naquele momento.
Agora é a minha vez.
Não no sentido de ocupar o lugar de ninguém, mas de assumir o meu próprio lugar.
A baleia, para mim, passou a representar essa passagem. Ela veio acompanhada da imagem de uma mulher entrando em uma nova fase, uma fase de liderança. E isso encontrou algo que já estava acontecendo dentro de mim.
Talvez o sonho com o cachalote, meses atrás, tenha sido apenas uma imagem produzida pelo meu inconsciente. Talvez tenha sido uma associação que só agora encontrou um contexto para fazer sentido. Não tenho como saber. Mas existe algo que considero mais importante do que descobrir de onde veio a imagem: perceber o significado que ela ganhou quando reapareceu.
Porque símbolos não precisam necessariamente nos entregar uma explicação pronta. Às vezes, eles nos ajudam a reconhecer algo que já estava acontecendo dentro de nós.
E talvez seja isso que aconteceu comigo hoje.
A baleia apareceu novamente e, junto dela, vieram as mulheres da minha história. Vieram os rostos, a gratidão, o choro e, depois, o alívio. Como se uma parte de mim estivesse reconhecendo que um ciclo havia mudado.
Não significa que eu tenha todas as respostas. Significa apenas que alguma coisa dentro de mim parece ter mudado de lugar.
Talvez chegar a essa fase da vida seja também compreender que não precisamos mais viver apenas a partir daquilo que recebemos. Podemos escolher o que permanece, o que precisa ser transformado e o que começa conosco.
É possível honrar as mulheres que vieram antes sem carregar aquilo que não nos pertence.
É possível agradecer sem repetir.
É possível amar a nossa história e, ainda assim, escrever uma nova parte dela.
E talvez seja isso que eu tenha sentido quando disse:
“Agora chegou a minha vez.”
Talvez a liderança que começa nessa fase da vida não seja sobre liderar outras pessoas.
Talvez seja, antes de tudo, sobre finalmente assumir a liderança da própria existência.
E foi isso que a baleia me mostrou hoje.
Não uma resposta sobre o futuro, mas uma percepção sobre o presente:
eu cheguei a um lugar da minha vida em que posso olhar para trás com gratidão, reconhecer as mulheres que vieram antes de mim e, finalmente, seguir em frente ocupando o meu próprio lugar.
Agora chegou a minha vez.
por: Janaínna Bassi Pernia




Comentários