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O velho precisa ir embora — mas o que precisa morrer é o velho pensamento

31 de ago.
6 min de leitura

Há alguns anos, assisti a um vídeo que dizia algo que me incomodou profundamente: “os velhos precisam ir embora para que o novo possa surgir.”

Aquilo me chocou.

A frase me pareceu brutal, quase desumana. Como assim, os velhos precisam ir embora? Como se uma geração tivesse uma espécie de prazo de validade e, depois de cumprir sua função, precisasse desaparecer para dar lugar à próxima.

Eu não gostei do que ouvi. Mas, infelizmente, entendi a mensagem.

E talvez seja justamente por ter entendido que aquela frase permaneceu na minha cabeça durante tanto tempo.

Hoje, trabalhando com mulheres, observando seus comportamentos, suas histórias, seus relacionamentos e os padrões que atravessam gerações, eu consigo olhar para aquela frase de uma maneira diferente.

Talvez o problema não seja que os velhos precisem ir embora.

Talvez o que precise ir embora seja o velho pensamento.

Porque uma geração não transmite apenas genes, sobrenomes e histórias familiares. Ela transmite valores, crenças, medos, preconceitos, modelos de relacionamento e ideias sobre o que significa ser homem, ser mulher, ser mãe, ser esposa, ser filha.

E é exatamente assim que muitas estruturas continuam existindo.

Não porque alguém decidiu conscientemente mantê-las, mas porque elas foram ensinadas tantas vezes que passaram a parecer naturais.

A política não muda quando continuamos ensinando aos nossos filhos que só existem determinados lados possíveis. A sociedade não muda quando continuamos reproduzindo os mesmos comportamentos dentro de casa. As relações não mudam quando continuamos ensinando nossas filhas a suportar aquilo que nossas próprias mães aprenderam a suportar.

É aí que essa discussão começa a ficar muito mais séria.

Porque, quando trabalho com mulheres, há coisas que ficam impossíveis de não enxergar.

Nós vemos o feminicídio.

Vemos mulheres sendo violentadas.

Vemos mulheres sendo desvalorizadas, humilhadas, controladas e diminuídas.

Mas também precisamos olhar para uma questão que é muito mais desconfortável:

Por que algumas mulheres defendem comportamentos que também as prejudicaram?

Por que uma mulher olha para outra mulher e diz:

“Ele só gritou.”

“Foi uma vez.”

“Ele estava nervoso.”

“Todo casal briga.”

“Você precisa pensar no seu casamento.”

“Você precisa pensar nos seus filhos.”

“Mulher separada sofre.”

“Você precisa fazer o casamento dar certo.”

E, ao mesmo tempo, quando se trata do filho homem, a régua pode ser completamente diferente.

“Isso mesmo, filho.”

“Larga essa mulher.”

“Ela é interesseira.”

“Você merece coisa melhor.”

Percebem o que acontece?

A menina aprende a permanecer.

O menino aprende que pode escolher.

A menina aprende a compreender.

O menino aprende a ser compreendido.

A menina aprende que precisa preservar o relacionamento.

O menino aprende que precisa preservar a própria liberdade.

E, muitas vezes, quem ensina isso é a própria mãe.

Não necessariamente porque ela seja uma mulher má.

Mas porque ela também foi ensinada assim.

Esse é um dos aspectos mais perversos de qualquer estrutura cultural: quando ela se torna tão profunda, as próprias pessoas que foram prejudicadas por ela passam a defendê-la.

É assim que um padrão sobrevive.

Ele passa de mãe para filha.

De pai para filho.

De avó para neta.

De família para família.

E chega um momento em que ninguém mais pergunta de onde aquilo veio.

Apenas repetem:

“Sempre foi assim.”

Mas sempre ter sido assim nunca foi uma boa justificativa para continuar fazendo alguma coisa.

Eu penso muito nisso quando olho para a minha própria filha.

Tenho 50 anos e uma filha de 7.

E eu não quero ensinar a ela que casamento é uma obrigação.

Não quero que ela acredite que precisa permanecer ao lado de alguém simplesmente porque um dia disse “sim”.

Não quero que ela pense que um homem que grita com ela deve ser perdoado porque estava nervoso.

Não quero que ela aceite ser chamada de nomes porque “foi só uma vez”.

Não quero que ela seja um troféu diante dos amigos e invisível dentro de casa.

Não quero que ela confunda presença física com parceria.

Não quero que ela confunda casamento com prisão.

Eu quero que ela tenha uma régua alta.

E quando digo uma régua alta, não estou falando de procurar um homem perfeito.

Estou falando de ensinar uma menina a reconhecer o próprio valor.

Eu digo para ela: para cima.

Se um dia você escolher alguém, escolha alguém que esteja acima daquilo que você já conhece como amor, respeito, parceria e presença.

Essa é a minha régua.

E, felizmente, eu tenho ao meu lado um homem que me permite dizer isso com tranquilidade, porque o meu marido está muito acima da régua que eu quero que minha filha tenha.

Mas essa conversa não é apenas sobre relacionamentos.

Ela é sobre o mundo que estamos construindo.

Porque existe uma ideia muito repetida de que “os jovens são o futuro”.

Eu discordo.

O jovem pode ser o futuro, mas também pode ser simplesmente a continuidade do passado com uma aparência mais jovem.

Se ele receber os mesmos preconceitos, as mesmas crenças, os mesmos modelos de relacionamento e as mesmas verdades absolutas, o que exatamente estará sendo renovado?

Nada.

Apenas estaremos trocando os personagens.

É por isso que eu não acredito que devamos esperar uma geração morrer para que outra consiga transformar alguma coisa.

A mudança precisa acontecer agora.

Enquanto estamos aqui.

Enquanto ainda temos filhos para educar.

Enquanto ainda temos meninas para proteger.

Enquanto ainda temos meninos para ensinar.

Enquanto ainda temos mulheres capazes de olhar para a própria história e perguntar:

“Será que aquilo que me ensinaram como verdade realmente precisa continuar sendo verdade para mim?”

Essa pergunta é revolucionária.

Porque talvez a transformação comece quando paramos de obedecer automaticamente às ideias que herdamos.

E isso também exige coragem das mulheres.

Coragem para reconhecer que podemos ter reproduzido aquilo que um dia nos feriu.

Coragem para perceber que, às vezes, defendemos homens contra outras mulheres.

Coragem para admitir que podemos ter ensinado nossas filhas a suportar mais do que deveriam.

Coragem para ensinar nossos filhos homens que amar uma mulher não lhes dá poder sobre ela.

Foi justamente uma palestra que fiz para 60 mulheres que me mostrou isso de maneira muito concreta.

Eu havia preparado uma palestra com um determinado caminho, mas, por causa do Agosto Lilás, a conversa tomou outra direção.

E foi muito bom.

Porque existem assuntos que precisam sair do discurso bonito e entrar na vida real.

Precisamos falar sobre por que mulheres desvalorizam outras mulheres.

Precisamos falar sobre como o patriarcado conseguiu se tornar tão integrado à nossa cultura que, muitas vezes, ele não é mais percebido como uma estrutura — ele é percebido como normalidade.

Precisamos falar sobre aquilo que foi roubado das mulheres ao longo do tempo: autonomia, força, voz, escolha, conhecimento sobre si mesmas e a possibilidade de definir o próprio caminho.

E eu acredito que essa conversa precisa continuar.

Porque não adianta apenas dizer às mulheres que elas precisam ser fortes.

Precisamos perguntar:

Quem ensinou essa mulher a acreditar que ela não poderia ser?

Quem ensinou que ela deveria aceitar?

Quem ensinou que ser uma boa esposa significava suportar?

Quem ensinou que ser uma boa mãe significava proteger o filho homem de qualquer consequência?

Quem ensinou que uma filha divorciada era um fracasso?

Quem ensinou que o casamento deveria estar acima da dignidade?

E, principalmente:

Quem ensinou que isso era amor?

Talvez seja aqui que aquela frase que me chocou tantos anos atrás encontre seu verdadeiro significado.

Sim.

O velho precisa ir embora.

Mas não necessariamente o velho de carne e osso.

O que precisa ir embora é o velho condicionamento.

A velha régua.

A velha ideia de que mulher deve suportar.

A velha ideia de que homem pode ser perdoado por aquilo que nunca aceitaríamos de uma mulher.

A velha ideia de que casamento é obrigação.

A velha ideia de que mãe deve proteger o filho homem de tudo.

A velha ideia de que uma mulher precisa diminuir outra mulher para manter um sistema funcionando.

Esse velho precisa morrer.

E não quando a próxima geração chegar.

Agora.

Porque nós somos a ponte entre aquilo que recebemos e aquilo que entregaremos.

E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades que temos: decidir conscientemente o que merece continuar e o que precisa terminar em nós.

Não precisamos esperar os velhos irem embora.

Precisamos fazer com que o velho pensamento vá embora antes de chegar aos nossos filhos.

É assim que uma geração realmente muda.

Não quando desaparece.

Mas quando tem coragem de não transmitir adiante aquilo que já não serve mais.

E talvez seja exatamente aí que começa uma mulher consciente.

 
 
 

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